A dignidade do futebol

Eu tinha 10 ou 12 anos quando comecei a assistir o Canal 100. O programa passava aos sábados a tarde na extinta Rede Manchete. Eu nunca havia visto imagens do Pelé, de Garrincha e de tantos outros craques. Fiquei estupefato com as imagens em câmera lenta, filmadas em película, no nível do campo.

No entanto, nada me comovia tanto quanto as crônicas de Nelson Rodrigues na voz Paulo César Peréio. Eu não sabia quem era Nelson Rodrigues, e só me reencontrei com ele quando a Companhia das Letras publicou seus livros, dentre eles as crônicas de futebol. Lendo-as muitos anos depois do meu primeiro contato com o Canal 100 pude confirmar a grandiosidade dos textos, e a dignidade que ele deu não apenas ao gênero da crônica de futebol, mas ao futebol si. Ninguém jamais, dentro ou fora do país encontrou forma e o conteúdo tão adequado para falar desse esporte.

Nelson Rodrigues teve o grande mérito de mostrar a relação entre o futebol e a vida. Em seu texto, pequenos momentos como os dribles de Garrincha ou Zizinho são tão imortais quanto qualquer episódio da Ilíada; e eventos como o Fla-Flu são tão plenos de significados histórico-universais como a Guerra de Tróia.

Mas Nelson Rodrigues tem uma mérito intelectual que valorizo ainda mais: o gênero que inventou nasceu de sua profunda imersão e observação da realidade nacional. Nenhum europeu ou americano fez o que ele faz, e jamais o fará.

A seguir, reproduzo um dos episódios do Canal 100, com uma crônica – uma crônica não! Uma monumental obra de arte – de Nelson Rodrigues sobre o Fla-Flu.

Nunca fomos tão brasileiros

Nelson Rodrigues

[O Globo, 4/6/1965]

Nelson Rodrigues

Amigos eu não gosto da multidão ou, por outra, não desgosto. Mas a multidão não tem cara. Por isso mesmo, não há nenhuma relação entre ela e a pessoa humana. Ontem, porém, isto é, anteontem, ocorreu o suave milagre. Eram cento e não sei quantos mil brasileiros. E que se reuniam, no Maracanã, para a festa do ressentimento. Vejam vocês: – mais de 100 mil ressentidos.

Como se sabe, há dois anos a Bélgica venceu o Brasil em Bruxelas, por 5 x 1. Essa humilhação ainda pingava sangue e todo mundo foi ao estádio para vingar a desfeita. Amigos, antes de chegar ao Maracanã, pasmei para a loucura dos automóveis e das buzinas. Nem o enterro da Inês de Castro teve tantos carros. Eles subiam nas calçadas, ou trepavam nas árvores como macacos e quase pulavam os muros.

Finalmente, dentro do Maracanã, eu espiei aquela gente toda. Pela primeira vez, vi uma multidão parecida com o ser humano e repito: – uma multidão terna, generosa, dionisíaca. Eis o charme do Maracanã lotado: – era um alegre, era um jucundo, um salubérrimo ressentimento. E cada brasileiro presente era um patriota.

Até o Armando Nogueira, que separa o Brasil do escrete, a pátria do futebol, pingava de patriotismo. Com esporas e penacho, e mais uns bigodões, ele seria um autêntico dragão de Pedro Américo. E nenhum de nós ficava atrás, nos arrancos de civismo. Então no meu canto, eu descobri o óbvio ensurdecedor, ou seja: – que o ressentimento funda uma nação. Nunca fomos tão brasileiros, tão Brasil.

Pois bem. Houve o jogo e a mácula dos 5 x 1 foi raspada, a palha de aço, do orgulho nacional. A vitória purificou e, mais, a vitória pacificou a pátria. Durante os noventa minutos de batalha, ninguém matou, ninguém roubou, ninguém traiu. As anas kareninas, as madames bovaris nativas fizeram uma pausa no pecado. Só interessava a vingança brasileira.

Eu disse que ninguém matou e acrescento: – também ninguém morreu. Cada brasileiro vivo ou morto, no alto da arquibancada ou no fundo de uma cova, torceu ferozmente. No momento em que o Brasil se lavava da desfeita, ninguém era defunto. Em todas as sepulturas, as ossadas, as caveiras ouviam o seu radinho de pilha.

Pois valeu a pena a grande, a unânime, a ululante vigília nacional. E, agora, vamos falar dele, o absoluto. Sim, falamos de Pelé. Cada um dos seus gols e particularmente o segundo, foi mais lindo que um poente de folhinha. Mas vejamos o lance imortal. O doce crioulão estava cercado de belgas na área adversária. Inimigo por toda a parte. E, então, quase se sair do lugar, e quase sem tocar na bola, Pelé driblou um, dois, três. Limpou, lavou o terreno com fintas sublimes, ficou só com o goleiro adversário. E só então enfiou para o fundo das redes.

Pelé em 1958

Quando Pelé fez isso, baixou no estádio a certeza de que virá do Brasil para o mundo a grande Palavra Nova. Ao mesmo tempo, assistimos ao nascimento de um novo fanatismo e de uma nova fé: – o escrete. A seleção, repito, é a pátria sem esporas e sem penacho. Amigos, quando se consumou a goleada, virei-me para o Armando Nogueira. Ele, que nega pátria ao escrete, estava desvairado. Seu lábio tremia e seu olhar vazava luz. Eu estava vendo a hora em que o confrade ia cantar a “Marselhesa”.

Li, num cronista, que Pelé não rendeu “cem por cento”. O colega escreveu isso e o lustre não lhe desabou no crânio. Meu Deus! Queriam que o crioulo fizesse o quê? Ele fez tudo. Rompia em todas as posições. Aparecia na frente e atrás, cabeceava de zagueiro em nossa área, ao mesmo tempo, despontava na área  inimiga. Só não apitou.

Mas eu não acabaria essa crônica sem mencionar outro suave milagre. Digo, “suave” e já retifico: – ensurdecedor milagre. Refiro-me à ressurreição de Garrincha. A medicina oficial tinha dado o Mané como morto e enterrado para o futebol. Graças a Deus, o médico entende de doença e nada sabe do ser humano. O que vimos ontem ou anteontem foi a vitória do homem. Vocês viram: – Garrincha corria e atrás dele vinha a gargalhada popular, como uma cachorra. Ele pôs guizo nos adversários e repito: – o seu marcador estava mais carregado de guizos do que um rigoletto de lança-perfumes. O público exultou como se Mané, com suas fintas deslumbrantes, estivesse quebrando o surto inflacionário. Eis a verdade: – ao sair do estádio, o povo ia reabilitado de todas as suas frustrações. Cada um de nós era um rei Lear a arrastar pelo chão o púrpura do seu manto.